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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O que cura também pode matar

Uma grande ameaça silenciosa, mas não menos daninha, coloca em risco tanto a saúde humana como a animal, e tem consequências para a segurança alimentar e o bem-estar econômico de milhões de famílias rurais: a resistência aos antimicrobianos.
O uso indiscriminado e excessivo de produtos sintéticos para combater enfermidades nos sistemas alimentares e agrícolas gera resistência aos antimicrobianos (AMR), o que causa a morte de aproximadamente 700 mil pessoas por ano, número que pode subir para dez milhões.

A AMR é um fenômeno natural de microrganismos como bactérias, vírus, parasitas e fungos, que deixam de ser sensíveis aos efeitos de medicamentos, como antibióticos, que costumam ser efetivos no combate a infecções. Mas as práticas comerciais destinadas a aumentar os benefícios fazem com que, na prática, esses medicamentos sejam usados cada vez mais somente para promover o crescimento dos animais.

“O mundo está diante de um tipo diferente de emergência em saúde pública, que é tão dramático quanto pouco visível”, alertam em um artigo conjunto os diretores de três organizações internacionais dedicadas a proteger a saúde humana e a animal, publicado pelo jornal The Huffington Post. “À exceção das superbactérias, as AMR não causam grande alarme público”, explicam Monique Elolt, diretora-geral da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), Margareth Chan, diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), e José Graziano da Silva, diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

“A AMR poderia matar cerca de dez milhões de pessoas ao ano e, segundo uma análise realizada no Reino Unido, com o custo para a economia mundial podendo chegar a US$ 100 trilhões anuais”, afirmam os diretores dos três organismos. Se o problema não for atendido, a AMR poderá representar um risco até para a quimioterapia e as intervenções dentárias e cirúrgicas comuns, pois seria difícil ou impossível tratar as infecções. As melhorias em saúde pública e o prolongamento da vida alcançados no século 20 poderão estar em risco, acrescentaram.

Além do número crescente de mortes atribuídas às infecções relacionadas à AMR, esta também supõe um risco para a segurança alimentar, os modos de vida, a saúde animal e o desenvolvimento agrícola e econômico mundiais, segundo as três agências especializadas das Nações Unidas. O uso global de produtos sintéticos para matar bactérias, vírus, parasitas e fungos nos sistemas de produção agrícola e alimentar requer um esforço concertado para mapear, compreender e mitigar os riscos da AMR, ressalta a FAO.

A resistência aos antimicrobianos foi descrita pela primeira vez em 1940, mas a compressão dos diferentes caminhos pelos quais essa resistência aparece e se propaga está engatinhando, indica o estudo Drivers, Dynamics and Epidemiology of Antimicrobial Resistance in Animal Production (Fatores, Dinâmicas e Epidemiologia da Resistência aos Antimicrobianos na Produção Animal).

“Como é frequente encontrar no mundo alimentos contaminados com bactérias resistentes, como a E. Coli e a Salmonella, é muito provável que as medidas que promovam um uso prudente dos antimicrobianos sejam extremamente úteis para reduzir a emergência e a propagação da AMR”, destaca o documento da FAO. Diante desse grande desafio, FAO, OMS e OIE lançaram, em novembro de 2016, a Semana Mundial de Conscientização sobre os Antibióticos.

O estudo resume a magnitude da AMR nos alimentos e, em especial, na produção pecuária, que, se prevê, representará dois terços do futuro aumento no uso de antimicrobianos, e recomenda apoiar e fomentar mais pesquisas, como a sequência molecular e a análise epidemiológica, para determinar os fatores que incidem em como e por que um agente resistente se incorpora nos microbiomas intestinais de humanos e animais, e também aponta a necessidade de se criar protocolos e bases de dados para construir modelos de avaliação de riscos.

O uso de antimicrobianos com a única finalidade de fomentar o crescimento animal deveria ser proibido de forma paulatina, destaca a FAO. E se deveria insistir em alternativas que garantam a saúde animal, como melhores programas de vacinação. Os resíduos antimicrobianos no ambiente, em especial nas fontes de água, deveriam ser rastreados do mesmo modo como se busca por substâncias perigosas, acrescenta.

“Devido ao nosso limitado conhecimento sobre os modos de transmissão, as formas de mitigar a propagação global da AMR inclui controlar sua emergência em vários ambientes e minimizar as oportunidades de sua propagação no que poderiam ser as vias mais importantes”, diz o informe. Os autores do estudo, especialistas do Colégio Veterinário de Londres e da FAO, dirigidos por Juan Lubroth, são cautelosos em relação ao que falta conhecer, mas destacam que a evidência sobre a dimensão do perigo é convincente.

Por exemplo, as abelhas norte-americanas possuem bactérias intestinais diferentes das que se encontram em outros lugares, o que reflete o uso dos antibióticos tetraciclina nas colmeias desde a década de 1950. As fazendas piscícolas do Mar Báltico têm menos genes resistentes do que as dos sistemas aquícolas da China, que agora são reservatórios de genes resistentes às quinolonas, um grupo de medicamentos muito importantes para os humanos, cujo uso aumentou pela crescente resistência a antimicrobianos anteriores, como a tetraciclina.

A última descoberta em muitos países de resistência à colistina, considerado o último antibiótico em medicina humana, também destaca a necessidade de se controlar a produção de animais, pois é usado há décadas na criação de porcos, aves, ovelhas, vacas e peixes. O informe da FAO se concentra no gado porque se especula que a demanda por proteínas animais vai acelerar a produção intensiva, e o maior contato em lugares fechados aumenta a incidência de patógenos resistentes.

As aves, principal fonte de proteína animal, seguidas do porco, são importantes veículos para a transmissão da resistência aos humanos. Os últimos casos detectados na Tanzânia e no Paquistão também demonstram o risco da AMR nos sistemas aquícolas que usam dejetos da criação de animais para a produção de peixes. Como os animais só metabolizam uma pequena proporção dos agentes antimicrobianos que ingerem, a propagação destes a partir dos dejetos animais se tornou um importante motivo de preocupação, segundo o documento.

Por outro lado, os pequenos produtores poderiam usar menos antimicrobianos, mas costumam comprar medicamentos de venda livre sem consultar um veterinário, e o uso inadequado de doses subletais gera uma variabilidade genética e fenotípica nas bactérias que sobrevivem. Por último, o informe enfatiza que a colaboração entre todos os setores e sobre todos os aspectos da produção de alimentos, do campo até à mesa, permitirá uma contribuição fundamental para se conseguir um enfoque efetivo contra a AMR.

Fonte: Envolverde

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