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terça-feira, 18 de junho de 2013

A nova velha luta

Estamos mobilizados pela mesma causa que uniu os “nossos velhos” no passado: a tal democracia. Nova. Atualizada. 2.0. Mas democracia
por Thiago Foresti — publicado 18/06/2013 08:34, última modificação 18/06/2013 08:58

Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Protestos em BrasíliaManifestantes protestam em frente ao Congresso Nacional contra gastos na Copa, corrupção e por melhorias no transporte público, na saúde e na educação



Essa hiperfragmetação de causas
reflete dois grandes desafios da nossa geração. O primeiro é a falta de um inimigo em comum, como um governo ou um ditador. O segundo é que a gente tem problema pra caramba! Transporte, saúde, educação, lazer, meio ambiente. São poucas as gerações que enfrentaram torrencial chuva de problemas acumulados como a nossa. Ameaça de colapso ambiental, cidades insustentáveis, fome, obesidade, violência urbana, estresse, risco de câncer, até as velhas e ultrapassadas guerras continuam a nos rondar nos dias de hoje. E como se não bastasse, somos uma geração extremamente demandada e cobrada para levantar e resolver o problema todo, muitas vezes sob comparações do tipo: “na minha época...”
Lembro quando os professores da faculdade de jornalismo contavam suas histórias do passado: “Na idade de vocês estávamos lutando contra a ditadura...”, diziam enquanto nós, estudantes imberbes, sonhávamos em fazer a revolução, na maioria das vezes sentados no bar, sem saber direito por onde começar.
A grande manifestação de São Paulo é resultado de 10 anos de um constante aprendizado: protestar num mundo em profunda transformação. A verdade é que nós nunca deixamos de reclamar; só estava difícil reunir as pessoas.
Os primeiros ensaios começaram nas redes sociais. Criamos grupos, comunidades, páginas. Aprendemos a fazer vídeos, escrever nossos próprios manifestos e projetos. Nesse meio tempo surgiram palavras como crowdfunding, crowdsource, software livre e tantas outras que nos instrumentalizaram e revolucionaram nossa forma de fazer. Se a grande mídia se omitia e mentia, nossas timelines personalizadas escancaravam e zombavam com a verdade. Aos poucos nos infiltramos em empresas, ministérios, autarquias. Segredos foram vazados, mentiras descobertas, escândalos revelados. E nossos “líderes” apareciam com a mesma cara de paisagem, como se nada estivesse acontecendo.
Com tanta mudança, a maioria de nós já acreditava que uma petição online tivesse algum valor. Se dois milhões de pessoas assinam um documento reivindicando a saída de Renan Calheiros da presidência do Senado, isso não deveria ser arquivado, como foi. Se uma pesquisa indica que a maioria da população não quer que o preço da passagem aumente, então ela não deveria ser aumentada, como foi. A sociedade está com sede de poder, está com sede de discutir e tomar decisões. E é isso que os “líderes” não estão entendendo.
O lema geral que parece ter se tornado o mantra dos manifestantes é de que “não são apenas 20 centavos”. E não é mesmo. No fundo é sobre a mesma coisa que nossos velhos lutaram no passado: a tal democracia. Mas é uma versão nova. Atualizada, 2.0. Queremos uma democracia que leve em conta nossos desejos e vontades e não uma que só dê as caras de quatro em quatro anos.
A manifestação de São Paulo mexeu com o coração do País porque foi a síntese e a confluência de todo esse mosaico de causas que temos hoje. Ela reuniu tudo isso numa insatisfação legitima da maior cidade da América Latina que sofre diariamente por conta de um transporte público ineficiente. Seja qual for a bandeira, o sentimento que fica é o de que, finalmente, aconteceu.

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